Adeus

2810a5d7a5696db2209c71852889dffd664105d8– A sua benção, mãe.

– Deus te abençoe, meu filho. Juízo.

É só mais uma noite de sábado, daquelas em que você diz até logo, pede a benção e tem certeza absoluta de que vai voltar. Uma breve ausência.

Não me recordo de ter dito “adeus” nessa vida a ninguém. Às pessoas que eu deveria, eu não o disse. O adeus é a palavra do após. É uma palavra que dizemos a nós mesmos para tentarmos entender que alguém se foi. De vez.

Eu não disse adeus quando Thamires foi morar em Fortaleza, nem quando Joanna foi morar no Paraná. Não disse adeus quando voltei de São Paulo e deixei minha tia lá. Ela se foi, mas o adeus não foi dito. Eu não disse adeus quando terminei meu único namoro, muito menos quando vi minha tia Tereza pela última vez.

Talvez o adeus seja um consolo doloroso. Uma palavra que nunca queremos, mas acabamos pronunciando muitas vezes depois da hora derradeira, depois da despedida de fato. Porque não há muito mais o que dizer. A nós mesmos, podemos dizer que não fomos bons o suficiente, que poderíamos ter dado nosso melhor. Podemos dizer “eu te amo”. A nós mesmos. Depois que alguém se vai de nossas vidas para sempre, não há nada mais que possamos dizer a este alguém. Mesmo que você encontre todos os dias, e troquem sorrisos, não há nada a ser dito. Porque no momento em que a pessoa te deixa, é para sempre. E você sabe que tudo o que tinha para dizer, o deveria ter dito antes do adeus. Que também não foi dito.

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO

Acho difícil que consigamos conviver com as despedidas. Quando amamos alguém, aquela pessoa se torna parte de nós, parte do nosso coração. E se essa pessoa se vai de nossas vidas, por motivo qualquer que seja, ela deixa um vazio. O lugar que ocupava não pode ser ocupado por mais ninguém. Por mais nada. E há os que mentem para si mesmos, tentando se consolar com a desculpa de que o tempo cura tudo, quando o tempo na verdade nada cura. O tempo torna mais suportável, o tempo te permite pensar em alguém sem chorar, te permite viver outras experiências, e sorrir outra vez. Mas o tempo nunca te dará o alívio do esquecimento. Nunca.

É um fardo pesado. Saber que você vai acordar de manhã e se lembrar do “bom dia”, que vai reconhecer aquele olhar em um ator de cinema qualquer, mesmo passados anos… Mas não pode ser em vão. A dor está presente como uma lembrança. Uma lembrança de algo que vivemos, que nos marcou de alguma forma, nos fez ser quem somos, nos fez crescer, ou simplesmente nos ensinou a fazer diferente. A dor da perda não cessa, mas pode ser que esteja ali para nos lembrar que existem outras tantas dores maiores no mundo, e nos tornar mais humanos, mais solidários…

Não que alguém mereça a dor de uma perda. Mas esse vazio que fica, pode ser preenchido de outras formas. Se a gente procurar de verdade, com vontade, há muuuuuuita gente nesse mundo, com muito para preencher um coração. Há muitas crianças sem pais, carentes de afeto. Muita gente precisando de um ombro amigo, um conselho, uma conversa. Tem muitos animais sofrendo, precisando de um lar, muitos lares precisando de voluntários. Quanta possibilidade nesse mundo! A vida, me parece, se resume ao lugar onde você está, e que vista você tem, estando neste lugar. Muitos chamam de ponto de vista. Claro que a dor não vai passar, mas SEMPRE há uma possibilidade de transformar a dor em algo de bom. Até para que se possa levar a vida adiante.

Neste blog eu escrevo a minha vida. E é claro que eu já tive perdas, que para mim foram irreparáveis. Mas quando falei da questão de olhar para os problemas dos outros, me referia a mim mesma. Hoje, em 29 de janeiro de 2013, quando paro para pensar em todas as perdas que tive na vida, vejo que não se comparam às das famílias de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Acho um absurdo que qualquer pessoa pública, mídia, veículo de comunicação e até mesmo as pessoas que vou chamar erroneamente de comuns – porque todo mundo tem suas particularidades -, não tenha interrompido ao menos por um momento, por um minuto, seus sorrisos, em solidariedade às famílias dessas crianças que faleceram no incêndio da Boate Kiss.

Eu acredito que todo o Brasil, cada pessoinha, tenha filhos, filhas, amigos, primos, conhecidos, que têm a idade daqueles jovens. Logo, não tem como não haver comoção. Não tem como não imperar a tristeza. O mais tocante de tudo, para quem está de longe, é quando nos colocamos no lugar daquelas pessoas: as que tentaram fugir e acabaram sufocadas, as que foram pisoteadas, as que perderam amigos, as que ajudaram, as que perderam filhos, as que perderam filhas, as que perderam irmãs, os bombeiros que socorreram. Eu poderia ser uma daquelas crianças ali, você poderia. Acho que diante disso, não há como não se comover. Não há como não prestar uma homenagem, ainda que singela. Ainda que um minuto de silêncio, ainda que um post.

Às família dessas vítimas desta fatalidade triste, minha homenagem, solidariedade e orações.

Que o abraço do mundo, que hoje se comove, possa confortar, ainda que de uma forma mínima, este sofrimento pelo qual estão passando.

(Foto: http://www.luzdaserra.com.br)

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