A viagem

Essa história começa numa segunda-feira. Era uma segunda como outra qualquer. Ela acordou, tomou seu café correndo, já atrasada para sua única aula do dia. E só em pensar que teria que se despencar até a Gávea para assistir a duas horas de aula, a vontade de ficar na cama aumentava.

– Aconteceu?

*

– Mas pensa pelo lado positivo: amanhã é sexta-feira. Quarta é feriado.

É. Ainda não tinha pensado nas coisas por esse lado.

A aula era sobre reportagem. Por sorte, naquele dia o professor resolveu falar sobre pauta, e não passou nenhum exercício. Ela não estava com cabeça para isso. Após receber as notas de seus dois últimos exercícios, até suspirou, aliviada. Estavam bem melhores que antes. Mas ela queria mesmo é que chegassem as 17h.

Por algum motivo que ela não sabia explicar, se afeiçoara àquele professor da autoescola. Não que isso fosse novidade. Essa menina se apaixona ao menor sinal de simpatia. Acho que seu coração não percebeu ainda a sutil diferença entre paixão e educação.

No estágio, se esqueceu de contar as horas para a aula de direção. Era dia de cobrir um seminário bastante interessante. E após ouvir a fala apaixonada da diretora do “Nós do Morro”, como poderia pensar em outra coisa? Esquecera até o tal professor. “Preciso entrevista-la”, pensou consigo. E foi. Para o estágio não serviria. Mas para o freela, quem sabe…

*

Mas que dia estranho… Tudo diferente. O instrutor, que sempre era tão falante, estava pensativo. “Fala alguma coisa”, ela dizia. “Alguma coisa”, era a resposta. Divertido ele ainda estava. Mas por que tão calado?

Ela foi pra casa, e voltou para a aula de inglês. Alegrinha. Tomou umas antes de sair. Esqueceu-se de comer também. O dia inteiro sem comer nada, e quando teve a oportunidade, preferiu beber. Mas alcóolatra ela não era. É que precisava esfriar a cabeça. Nos últimos tempos, ela estava necessitada de mais “ar” na mente. Não que com isso conseguisse…

– Next class is the oral test. Do you understand?

– Yes, teacher.

– Great. See you.

*

A novela das 21h era imperdível. Qualquer dia da semana que fosse. Assistiram como de costume. No dia seguinte, todos acordariam cedo. Foram arrumar o necessário para irem dormir. Nessa hora, a mãe dela foi checar o celular.

– Cinco chamadas perdidas? Vocês não ouviram o telefone tocar? – perguntou a mãe.

Não. Ninguém ouvira. Ninguém sabia. Nem tinha previsto. Na verdade, todos sabiam que poderia acontecer a qualquer momento, e, mesmo assim, ninguém estava preparado.

– Vamos arrumar as malas, meu pai faleceu. Temos que ir. – disse ela, após desligar a ligação.

Como seria a vida dali pra frente? Ela não fazia ideia. Sua mãe era hipersensível. E é claro que perder qualquer um dos seus pais a abalaria por completo. Pensando nisso, a menina arrumou as malas, abraçou sua mãe muitas vezes, na tentativa de consolá-la. Ela sabia que não seria fácil. E continuou com seu trabalho doloroso de preparar a alma para encarar a vida, a morte, o transtorno, o imprevisto… A viagem.

Viagem

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